segunda-feira, 12 de novembro de 2012

SOBRE "NEBLINA E SOMBRAS" (FILME), Republicação.





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FILME: NEBLINA E SOMBRAS (WOODY ALLEN)
Este é o filme em que Woody Allen não disfarça sua influência kafkiana. O filme em que o expressionismo alemão é relembrado de forma genial em suas cores preto e branco e no clima de terror, mistério e fascínio pela noite. Uma questão a se observar também é que é um dos poucos filmes dele não ambientados em Nova York mas na Europa do início do século XX, o que reforça sua inspiração expresionista e kafkiana. Há um assassino nas ruas daquela cidade, um psicopata que mata pessoas e os cidadãos desesperados resolvem formar milícias dispostos a ajudar a polícia na captura do facínora. O personagem Kleinman (Allen) é acordado no meio da noite por um destes grupos que o querem incluir em seu "plano" para a captura do assassino. Kleinman reluta em participar pois nem sabe dos assassinatos e nem se sente com coragem suficiente para a empreitada, o personagem segue a mesma linha de medíocre/trapalhão de Allen. A situação piora para ele porque não consegue desvencilhar-se do grupo e tem que cumprir sua parte no "plano", mesmo não sabendo que plano seja nem qual sua parte nele. Aqui o personagem Kleinman assume o mesmo destino de Josef K.: ser envolvido em uma série de circunstâncias e eventos dos quais não tem controle e dos quais será vítima. Se Josef K. é prisioneiro de um processo judicial sem ter a devida consciência de seus motivos, Kleinman (um nome judeu-alemão que começa com K) é prisioneiro de um plano para caapturar o assassino mas não tem consciência de sua estrutura. Uma estrutura da qual ele faz parte mas não sabe em qual parte.
Este filme é de 1992 mas baseado em um texto anterior: uma peça chamada "Morte". Algumas diferenças marcam o texto da peça e do filme, embora a história seja a mesma existem mudanças substanciais. Enquanto na peça Kleinman morre vitimado pelo assassino, no filme ele realiza seu grande sonho (que não aparece na peça) de tornar-se mágico de circo, deixando de ser um funcionário burocrate e puxa-saco do chefe (mais referências a Josef K.). Todos sabemos que Holywood gosta de finais felizes e a mudança do final parece atender a esta exigência da indústria cultural, ainda assim em ambos os finais o monstro escapa ileso. Aliás, sobre o assassino é necessário observar que no filme ele é alto, forte e assustador, um personagem só, mas na peça Allen dá a entender que não é um assassino mas vários. Quando Kleinman encontra-o ele é parecido com o psicopata, ao mesmo tempo em que outro personagem, que afirma também tê-lo visto afirma ser parecido com ele. O psicopata é o alter-ego violento de cada um dos personagens...
Nos anos 20 do último século um grande medo rondava a Europa, este medo manifestava-se em diversas formas e personagens: Mussolini e o fascismo, Hitler e o nazismo, Stálin e o stalinismo, a crise econômica do sistema capitalista, o desemprego em massa, o anti-semitismo crescente... Este clima de apreensão e medo foi representado pelo filme "O vampiro de Dusseldorf", um grande monstro que se esconde na escuridão esperando para atacar suas vítimas. Kafka trabalhara este grande medo em "O Processo", onde Josef K. (Kleinman?) é cercado pelo conjunto de situações jurídicas sem ter a compreensão e a força suficiente para enfrentá-las, e é vitimasdo por elas. Este clima de apreensão social aumentaria com a grande crise de 1929 e o desemprego em massa. As massas passaram a procurar um salvador e um bode expiatório para seus problemas, é aí que o fascismo europeu aumentará suas forças através do culto ao chefe e do ódio anti-semita. Tanto no filme como na peça Kleinman é confundido com o assassino e perseguido pela multidão que, enfurecida, exige um sacrifício para expulsar do corpo social o demônio do medo coletivo.
Este é o filme em que Woody Allen recria magistralmente este clima de medo coletivo. Casual ou de propósito? O crescimento, nos últimos anos do século XX, de movimentos que pregam e praticam a barbárie, como os fundamentalismos religiosos e os grupos neofascistas e neonazistas, sem esquecer do terrorismo de Estado como os bombardeios norte-americanos no Iraque e Yugoslávia, provocam o ressurgimento deste grande medo coletivo. O filme de Allen talvez tenha sido feito como uma homenagem/celebração ao cinema expressionista alemão retratando um clima do passado, porém é uma obra que, coincidentemente, encontra-se com a atualidade. O grande medo chegou, vindo do passado, cuidado. Ele cresce nas sombras e pode estar escondido na neblina... 
Aristóteles Lima Santana.





 Publicado originalmente em meu primeiro blog. Republicação. Texto de 2001.

Um comentário:

Salvador da Silva PraJá disse...

Cara... essa crítica está muito bem feita!!!