quarta-feira, 19 de outubro de 2011

SOBRE OS "FATOS SUBVERSIVOS"

Serão mesmo os fatos subversivos?

Por Muniz Sodré em 08/08/2011 na edição 654

“Os fatos são subversivos” – é o que nos garante o escritor inglêsTimothy Garton Ash desde o título de seu livro que acaba de ser publicado em português (Companhia das Letras, 430 pp.). Ash pratica um misto de jornalismo e historiografia, combinando reportagens com a pesquisa e a reflexão acadêmicas. Como professor é “top-model”: ensina em Oxford e em Stanford. O grande interesse de seu trabalho para a atividade jornalística de hoje é a sua insistência na categoria dos fatos, cuja realidade procura elucidar tanto nas questões políticas como nas culturais. Mesmo considerando que “já houve tempos piores para os fatos” (por exemplo, na década de 30, o aparato totalitário da mentira organizada nas ditaduras tecnológicas), ele chama a atenção para as novas “fontes de arranjo dos fatos”, que se encontram principalmente na fronteira entre a política e a mídia.

A questão tem importância prática e teórica. Mais de uma vez, frisamos em textos publicados aqui no OI, assim como em trabalhos acadêmicos, que o jornalismo implica um tipo particular de “conhecimento de fato”, nos termos da definição de Hobbes:

“Há dois tipos de conhecimento: um é o conhecimento de fato, e outro o conhecimento da conseqüência de uma afirmação a respeito de outra. O primeiro não é outra coisa senão sensação e memória, e é conhecimento absoluto, como quando vemos realizar-se um fato ou recordamos o que se fez; deste gênero é o conhecimento que requer uma testemunha. O último se denomina ciência (....)”.

O conhecimento dos fatos redunda, na verdade, em História, em torno da qual sempre girou o jornalismo, mesmo sem pretensões de essência ou sequer de sistematização de seus registros. O que os fatos, em si mesmos, nos transmitem são conhecimentos contingentes, isto é, que poderiam ser de outra forma, relativos, não necessários. Entenda-se: não necessários em si próprios, como o conhecimento científico, mas absolutamente necessários à atividade jornalística, onde vigora a frase lendária “os comentários são livres, mas os fatos são sagrados”.

Imprensa em transformação

A preocupação de Ash deriva da evidência de que, com a transformação da imprensa pelas novas tecnologias da informação e da comunicação e por suas conseqüências comerciais, a frase tenha sido modificada para “os comentários são livres, mas os fatos são caros”. Ele é categórico:

“Com a mudança da economia da coleta de fatos, encontram-se novos modelos de receita para muitas áreas do jornalismo –– esportes, negócios, diversão, interesses especiais de todo tipo ––, mas os editores ainda tentam descobrir como sustentar o caro negócio do noticiário internacional e do jornalismo investigativo. Enquanto isso, as sucursais no estrangeiro de respeitados jornais estão fechando como luzes de escritório que um zelador apaga em sua ronda noturna”.

Não se trata de uma visão apocalíptica, mas realista, já que ele contrabalança, em meio a todas essas mutações, riscos e oportunidades. Oportunidades: as novas tecnologias –– câmeras de vídeo, satélites e telefones celulares, gravadores de voz e scanners de documentos –– criam novas possibilidades de registro e debate da história corrente. É agora muito difícil sustentar uma mentira a longo prazo, no padrão, por exemplo, do que ocorreu em 1651, depois da morte do líder político-espiritual fundador do Butão, quando seus ministros “fingiram por não menos que 44 anos que o grande Shabdrung ainda estava vivo, embora em retiro silencioso, e continuaram a emitir ordens em seu nome”. Hoje, “um único videoclipe postado no YouTube pode acabar com as aspirações presidenciais de um político”.

Em contrapartida, multiplicam-se os riscos: com a notável facilidade digital de se produzir mentiras visuais, é cada vez mais difícil separar o joio do trigo, ou seja, o factóide do fato no novo “bios” virtual em que todos hoje se misturam, capitaneados pela mídia em sua acelerada fragmentação. Daí, a dúvida de Ash: “Eu trabalho tanto em universidades como em jornais. Dentro de dez anos, as universidades ainda serão universidades. Quem sabe o que será dos jornais?” A indagação se dirige evidentemente àqueles que “buscam fatos”, isto é, à consciência cívica preocupada com a história do presente.

Pulverização do fato

Esse tipo de preocupação ou de cuidado ético aplica-se não apenas à hipótese da mentira deliberada, mas à realidade da pulverização do fato no circuito das redes sociais e do “jornalismo de internet” de um modo geral, sob o influxo da ficcionalização da realidade. Se antes, em plena era do impresso, predominava em publicações semanais de luxo uma espécie de “jornalismo de butique” em que os fatos eram travestidos de retórica literária, hoje se consomem “átomos” de fato, que são despolitizantes, porque recalcam a argumentação coerente dos problemas sociais e impedem o aparecimento de uma narrativa completa sobre a vida pública, em favor do boato e do mexerico privado.

Não se precisa ir muito longe para saber do que estamos falando. A fragmentária informação disseminada sobre o governo da república é capaz de fornecer um claro exemplo dessa distorção histórica. As demissões de ministros e de quadros administrativos de elevados escalões originam-se em informações jornalísticas que mais parecem rumores do que fatos consistentes, já que têm origem em fontes de fraca evidência, uma espécie de off obscuro, cuja garantia de verossimilhança é um aparente consenso público quanto à generalização da corrupção ou então a força partidária no tabuleiro da governabilidade. Assim, um ministério pode sair isento da mesma factualidade criminalmente imputável que enlameou o outro. A realidade dos fatos submerge na retórica fragmentária da informação miúda, de puro impacto emocional.

Por outro lado, seriam mesmo aqueles os acontecimentos determinantes da queda do Ministro da Defesa? Uma colega é avaliada como “fraquinha”, outra como “desconhecedora de Brasília”, outros inominados, mas classificados como “idiotas”. Teriam a egolatria e a futrica, diminutos fragmentos informativos, tomado o lugar dos fatos pertinentes ao controle histórico do Estado? Pode ser que se trate apenas disso mesmo, uma reedição da conhecida “síndrome do lítio” de Ulisses Guimarães, mas então estaremos afundando não apenas na “pequena política” teorizada por Antonio Gramsci, mas na “pequeníssima política”, onde fragmento de fato e disse-me-disse, jornalismo de internet, assumem o primeiro plano da história do presente.

Tudo isso, triste e preocupante, nos diz que o “velho” jornalismo dos fatos é mais necessário do que nunca, por mais caro que seja. É que, como reflete Gramsci, “o velho mundo morre enquanto o novo tarda a aparecer. No claro-escuro perfilam os monstros”.

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[Muniz Sodré é jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro]

FONTE: Observatório da Imprensa.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

STEVE JOBS

STEVE JOBS (1955-2011)

A morte do deus tecno-humano

Por Raphael Tsavkko Garcia em 11/10/2011 na edição 663

Visionário, gênio, herói, semideus e mesmo um deus tecno-humano foram apenas alguns adjetivos usados pela mídia, por blogs e por indivíduos para descrever Steve Jobs, na quarta-feira (5/10), vítima de câncer, aos 56 anos de idade. De forma absolutamente irrestrita sua imagem foi vendida como a de um personagem irreal, saído da ficção direto para salvar a humanidade da inércia e da apatia. Seus iPods, iPhones e outros “i’s” se tornaram paradigmas supremos e símbolo da modernidade em que a tecnologia determina nossas vidas.

Mais do que um obituário, Steve Jobs obteve um case de marketing completo onde seus produtos foram vendidos sob o falso tom de jornalismo comprometido. Sua morte pareceu até mesmo um golpe de marketing. Apenas poucos dias após o anúncio de mais um novo produto, sonho de consumo em um mundo onde a posse de gadgets ultramodernos se tornou razão da vida de muitos, morre Jobs, sua marca foi exaltada e o e a compra do mais novo iPhone transformada quase em homenagem à memória do semideus.

Como de costume, a morte nos torna a todos perfeitos. Apaga nossas falhas, nossas contradições. Não há nenhum morto que não seja lembrado com alguma dose de... carinho, talvez? Mesmo os piores ditadores encontram conforto na memória de selecionados seguidores. Por que seria diferente com Jobs? Aos que se surpreendem com a comparação com ditadores, não se assustem. Jobs era líder de um império empresarial, capitalista por natureza. Não aceitava limites para sua criatividade ou para seus lucros. Contrário à lógica colaborativa e democrática que permeia a rede, preferia ter sob seu guarda-chuva os melhores, prontos a trabalhar por gordos salários, e mantendo preso sob contrato conhecimentos que poderiam ajudar no desenvolvimento de diversas outras ferramentas e produtos tecnológicos.

Pensamento único da mídia

Sua empresa, a Apple, estava envolvida em escândalos, como casos de trabalho escravo e mesmo suicídios em fábricas que produziam seus produtos na China, como a Foxconn, que logo ampliará suas garras até as terras brasileiras. Michael Moore já provou em seus documentários que os patrões normalmente sabem das condições desumanas a que são submetidos seus empregados, mesmo que em empresas terceirizadas. No Brasil, tivemos recentemente a cobertura do caso da Zara, cuja cadeia de produção incluía baixos salários e imigrantes em situação análoga à da escravidão. Neste caso, palmas para a mídia que teve a dignidade de ajudar na denúncia e na pressão.

No caso da Apple, toda e qualquer denúncia foi, agora, enterrada pelos louvores ao gênio precocemente falecido. Ditador em suas maneiras, frio nas suas decisões e interessado apenas na promoção pessoal e na de seus produtos, que só faltam ir ao mercado e fazer as compras pelo seu feliz dono. Apenas na internet, no ambiente em que a mídia ainda enfrenta dificuldades para impor sua ditadura do pensamento único, algumas vozes destoaram do coro ao semideus. Mas tímidas, localizadas e mesmo comportadas.

Estas foram ignoradas ou reproduzidas pela mídia com tom de descrença, quase de ofensa pessoal contra um herói que talvez tenha descoberto a penicilina ou a cura para o câncer, mas que foi vencido em uma batalha heroica.

A ditadura de pensamento único da mídia se perpetua e mantém vivo o alerta pela necessidade de uma real democratização dos meios de comunicação. E, acima de tudo, mostrou que, mais uma vez, a internet permanece como um dos únicos polos de resistência que, ironicamente, foi a casa do deus tecno-humano que faleceu.

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[Raphael Tsavkko Garcia é jornalista, blogueiro e mestrando em Comunicação]

FONTE: Observatório da Imprensa.

sábado, 15 de outubro de 2011

TECNOLOGIA E GUERRA

PLANETA DIGITAL

Os avanços tecnológicos e as novas formas de guerra

Por Rubens Barbosa em 04/07/2011 na edição 649

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 28/6/2011; intertítulos do OI

Os conceitos tradicionais de guerra e da forma de combate, como entendidos até aqui, estão sendo dramaticamente modificados pelo rápido avanço tecnológico. Peter W. Singer, no livro Wired for War (Preparado para Guerra), trata da robótica militar e mostra como isso afetará as táticas e estratégias das forças armadas. Os ataques cibernéticos ocorridos nos últimos meses, por outro lado, fizeram acender a luz vermelha nas instituições de segurança de todos os países.

Os veículos aéreos não tripulados (vants), de tamanho cada vez mais reduzido, estão transformando a maneira como os EUA pensam sobre a guerra e como se engajam nela. Os EUA empregaram os vants no Afeganistão, no Paquistão, para vigiar Bin Laden, e agora na Líbia. Israel utiliza os vants na luta contra a liderança militar palestina. O Pentágono dispõe hoje de cerca de 7 mil vants e solicitou ao Congresso US$ 5 bilhões para o desenvolvimento de novos veículos não tripulados do tamanho de aves e insetos, como as spy flies (moscas espiãs), equipadas com sensores e microcâmeras para detectar inimigos, armas nucleares ou vítimas de desastres naturais. Os vants são utilizados como arma de ataque, mas também como instrumento de vigilância antecipada contra eventuais ataques ou de proteção das fronteiras, sem nenhum risco para as forças aéreas ou terrestres.

O Brasil ainda engatinha nessa área e apenas recentemente adquiriu alguns vants para monitorar a porosa fronteira amazônica, tão vulnerável à ação do crime organizado do tráfico de drogas e de armas, e a Embraer começou a produzir esses veículos, com radares ultrassofisticados.

Espionagem cibernética

As invasões cibernéticas estão acarretando profundas transformações numa nova forma de guerra, a virtual. Os EUA, segundo diretrizes do Pentágono que serão divulgadas proximamente, passarão a considerar ataques cibernéticos como atos de guerra, sujeitos, portanto, a retaliações. Além de intensificar a segurança dos sistemas internos de defesa, as medidas incluirão desde sanções econômicas, passando por retaliações cibernéticas e até mesmo ofensivas militares. De acordo com porta-voz do Pentágono, todas as opções estão em aberto, o que denota a seriedade com que o assunto está sendo tratado. A Casa Branca informou que “responderá a atos no espaço cibernético da mesma forma que responderia a qualquer outro tipo de ameaça ao país”. O governo norte-americano afirmou que se reserva o direito de usar todos os meios diplomáticos, econômicos e militares para defender a nação, seus aliados e seus interesses. O governo dos EUA tem por que se preocupar. Basta lembrar que, só nos últimos meses, órgãos oficiais como o Departamento de Comércio, a CIA, o Senado, a rede de TV pública PBS e a empresa Lockheed Martins, que trabalha muito próxima do Pentágono no desenvolvimento de equipamentos militares sensíveis, foram afetados pela ação dos hackers.

Há uma proliferação de invasões em todo o mundo, não limitadas apenas aos governos ou organizações internacionais, como o FMI. Foram atingidas empresas que armazenam dados financeiros ou lidam com informações confidenciais de Estado, companhias como a RSA, unidade de segurança da EMC Corporation, dois bancos e uma administradora de cartões de crédito da Coreia do Sul. Um dos grupos de hackers começou a atacar organizações (Visa e Mastercard) e pessoas contrárias ao site e ao fundador do WikiLeaks. Ocorreram ataques com o objetivo de revelar ao público informações atos de corrupção e tentativas de limitar a liberdade na internet.

Há suspeitas de que também países – como a China, os EUA e Israel – estejam realizando ataques de espionagem cibernética. O programa nuclear do Irã foi infectado por vírus introduzido nos computadores oficiais por outro país. Consta que a Rússia e a Coreia do Norte possam ter-se utilizado dos serviços de hackers.

Medidas de defesa e punitivas

Um relatório da Otan concluiu não ser possível descartar a hipótese de que esses grupos de hackers passem a vender seus serviços a terroristas e ao crime organizado. Por outro lado, trabalho da OCDE minimiza a questão e observa que a possibilidade de um conflito cibernético é reduzida. As motivações políticas poderiam, assim, evoluir para chantagem, ganhos financeiros ou terrorismo.

Nos últimos dias, o Brasil entrou na mira dos hackers. A Presidência da República, a Prefeitura de São Paulo, o Ministério do Esporte, o IBGE, a Secretaria da Receita Federal e outros órgãos foram atacados e, segundo foi noticiado, dados foram retirados desses sites. Pesquisa do Tribunal de Contas da União revela que 64% dos órgãos federais não dispõem de uma política de segurança da informação. Suponho que o governo brasileiro esteja preocupado com vazamentos de documentos sigilosos e de detalhes técnicos, em especial os relativos ao Programa Nuclear Brasileiro, e ataques a usinas de geração de energia e redes de distribuição.

O governo brasileiro informou ter começado a pôr em prática medidas para proteger o país de ataques cibernéticos. Os ataques que visam ao roubo de informações estratégicas representam apenas 1% das ameaças, sendo registradas 2.100 tentativas de invasão por hora. A questão cibernética, ao lado da nuclear e da espacial, é prioridade incluída na Estratégia Nacional de Defesa. Em dezembro, o Gabinete de Segurança Institucional lançou o Livro Verde, que estabelece parâmetros de proteção das redes governamentais.

Dadas a magnitude do desafio e a vulnerabilidade do Brasil a essa nova forma de guerra, espera-se muito mais das autoridades, como medidas sofisticadas de defesa e punitivas para os responsáveis pelos ataques.

O tema é de alta prioridade e urgência, por afetar a segurança nacional.

***[Rubens Barbosa é o editor responsável da revista Interesse Nacional]

FONTE: Observatório da Imprensa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

EDITORA SUNDERMANN RELANÇA CLÁSSICO DE TROTSKY








LIVRO: REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO NA ALEMANHA, DE LEON TROTSKY

Ainda hoje há os que afirmam que Stálin foi um grande estrategista. A vitória soviética na segunda guerra mundial e seu papel fundamental na destruição da máquina de guerra nazista são os argumentos fortes de seus defensores. A própria vitória sobre Trotsky no final dos anos 20 é um de seus argumentos. É claro que seus defensores "esquecem" que para vencer seus adversários internos dentro do partido ele usou e abusou da calúnia, do assassinato e da deportação, embora alguns defendam tais atos (corajosos ou psicopatas?). É claro que vencer guerras e adversários políticos requer astúcia estratégica, subestimar Stálin não ajuda a entender bem a história tal qual se processou, ademais em política aprendemos que a moral é quase sempre muito relativa: não há notícias de que anjinhos de bondade tenham chegado ao poder. É claro que em vida Stálin foi um vitorioso, o que é discutível é a forma com que construiu sua vitória e as consequências dela tanto durante sua vida como após sua morte. Uma discussão sobre o legado de um personagem histórico como Stálin não se limita a seu período de vida (1879-1953) mas à posteridade de sua existência. E mesmo em vida algumas opções estratégicas de Stálin foram desastrosas. Para quem reverencia Stálin e subestima Trotsky o remédio mais forte é ler o livro "Revolução e contra-revolução na Alemanha", uma seleção de textos do velho Leon publicado no início dos anos 30 com artigos escritos entre 1929 e 1932.

A discussão é sobre o papel do Partido Comunista Alemão no período de ascensão do nazismo e, por extensão, da Internacional Comunista dirigida por Stálin desde o congresso de 1928 (VI congresso). A partir deste ano a Internacional Comunista dá uma virada esquerdista doentia concentrando em todos os países ataques contra a social-democracia moderada, usando termos como "social-fascismo" e "ala moderada do fascismo", obscurecendo para a militância dos partidos comunistas as diferenças entre a social-democracia e o fascismo, e, o que é pior, subestimando o último. Pois que os ataques à social-democracia indicavam uma linha de pensamento de considerá-la como mais forte e um empecilho maior à revolução. Para este esquerdismo doentio seria muito "fácil" varrer os fascistas politicamente, pois que as massas proletárias no momento certo os enxergariam como inimigos e o PC chegaria ao poder, mas a social-democracia confunde o proletariado com sua fraseologia de esquerda, sendo mais difícil vencê-la torna-se o adversário principal.

Em um momento de delírio o PC Alemão chega mesmo a desejar que os nazistas tomem o poder e, com seu governo autoritário e violento, acirrem a luta de classes ocasionando a insurreição proletária e a vitória do PCA. Trotsky com destreza e precisão destrói todas as ilusões do esquerdismo stalinista e alerta para os perigos da vitória das hordas de Hitler: a destruição do movimento operário alemão (social-democracia e comunismo), a remilitarização da Alemanha e, no futuro, a guerra da Alemanha Nazista com a União Soviética, todas as previsões mais do que confirmadas pela história. Stálin venceu a guerra? Trotsky previu a guerra. Todo o horror do nazismo e da segunda guerra mundial poderiam ter sido evitados se suas palavras tivessem sido ouvidas.

A proposta de Trotsky era clara: a frente única da social-democracia e do PCA contra o nazismo. Uma frente política e militar, pois o resultado do confronto político seria a guerra civil (como aconteceu na Espanha), mesmo que os nazistas vencessem a guerra civil a Alemanha estaria enfraquecida e seria fácil para as tropas soviéticas vencê-la.

A tragédia aconteceu, 1933 é o ano em que os nazistas chegam ao poder e Stálin assustado com tal fato ordena uma guinada na Internacional Comunista, esta passa do esquerdismo sectário para uma direitização ampla demais, fruto mais do desespero momentâneo do que de uma reflexão teórica séria. Chega a época das frentes populares. Por sua vez Trotsky joga suas forças na tentativa de criar uma nova Internacional. Nenhuma das duas alternativas freia o já inevitável: a ascensão da extrema direita e a guerra. Em uma época como a nossa, em que diversos grupos neofascistas crescem em diversos países, este livro é um guia fundamental.

Aristóteles Lima Santana, setembro de 2006.