terça-feira, 11 de outubro de 2011

STEVE JOBS ERA TÃO BOM ASSIM?

STEVE JOBS (1955-2011)

O inimigo número 1 da colaboração

Por Rodrigo Savazoni em 09/10/2011 na edição 662

Reproduzido do blog Trezentos, 7/11/2011; título original “A morte de Steve Jobs, o inimigo número um da colaboração”

Steve Jobs morreu, após anos lutando contra um câncer que nem mesmo todos os bilhões que ele acumulou foram capazes de conter. Desde quarta-feira (5/10), após o anúncio de seu falecimento, não se fala em outra coisa. Panegíricos de toda sorte circulam pelos meios massivos e pós-massivos. Adulado em vida por sua genialidade, é alçado ao status de ídolo maior da era digital. É inegável que Jobs foi um grande designer, cujas sacadas levaram sua empresa ao topo do mundo. Mas há outros aspectos a explorar e sobre os quais pensar neste momento de sua morte.

Jobs era o inimigo número um da colaboração, o aspecto político e econômico mais importante da revolução digital. Nesse sentido, não era um revolucionário, mas um contrarrevolucionário. O melhor deles.

Com suas traquitanas maravilhosas, trabalhou pelo cerceamento do conhecimento livre. Jamais acreditou na partilha. O que ficou particularmente evidente após seu retorno à Apple, em 1997. Acreditava que para fazer grandes inventos era necessário reunir os melhores, em uma sala, e dela sair com o produto perfeito, aquele que mobilizaria o desejo de adultos e crianças em todo o planeta, os quais formam filas para ter um novo Apple a cada lançamento anual.

A questão central, no entanto, é que o design delicioso de seus produtos é apenas a isca para a construção de um mundo controlado de aplicativos e micropagamentos que reduz a imensa conversação global de todos para todos em uma sala fechada de vendas orientadas.

Criar confiança

O que é a Apple Store senão um grande shopping center virtual, em que podemos adquirir a um clique de tela tudo o que precisamos para nos entreter? A distopia Jobsiana é a do homem egoísta, circundado de aparelhos perfeitos, em uma troca limpa e “aparentemente residual”, mediada por apenas uma única empresa: a sua. Por isso, devemos nos perguntar: era isso que queríamos? É isso que queremos para o nosso mundo?

Essa pergunta torna-se ainda mais necessária quando sabemos que existem alternativas. Como escreve o economista da USP Ricardo Abramovay, em resenha sobre o novo livro do professor de Harvard Yochai Benkler, The Penguin and the Leviathan, a cooperação é a grande possibilidade deste nosso tempo.

“Longe de um paroquialismo tradicionalista ou de um movimento alternativo confinado a seitas e grupos eternamente minoritários, a cooperação está na origem das formas mais interessantes e promissoras de criação de prosperidade no mundo contemporâneo. E na raiz dessa cooperação (presente com força crescente no mundo privado, nos negócios públicos e na própria relação entre Estado e cidadãos) estão vínculos humanos reais, abrangentes, significativos, dotados do poder de comunicar e criar confiança entre as pessoas.”

Colaboração: essa, e não outra, é a palavra revolucionária.

E Jobs não gostava dela.

***

[Rodrigo Savazoni é webproducer e realizador multimídia, diretor do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital e um dos criadores da Casa da Cultura Digital]

Fonte: Observatório da imprensa

domingo, 9 de outubro de 2011

O SOM DE NOSSA ÉPOCA

Enviado por Luis Fernando Veríssimo -

O som da época

Desconfio que ainda nos lembraremos destes anos como a época em que vivemos com o acompanhamento dos alarmes de carro. Os alarmes de carro são a trilha sonora do nosso tempo: o som da paranoia justificada.

O alarme é o grito da nossa propriedade de que alguém está querendo tirá-la de nós. É o som mais desesperado que um ser humano pode produzir — a palavra "Socorro!" — mecanizado, padronizado e a todo volume. É "socorro!" acrescentado ao vocabulário das coisas, como a buzina, a campainha, a música de elevador, o "ping" que avisa que o assado está pronto e todos os "pings" do computador.

Também é um som típico porque tenta compensar a carência mais típica da época, a de segurança. Os carros pedem socorro porque a sua defesa natural — polícia por perto, boas fechaduras ou respeito de todo o mundo pelo que é dos outros — não funciona mais. Só lhes resta gritar.

Também é o som da época porque é o som da intimidação. Sua função principal é espantar, e substituir todas as outras formas de dissuasão pelo simples terror do barulho. O som da época em que os decibéis substituíram a razão. Como os ouvidos são, de todos os canais dos sentidos, os mais difíceis de proteger, foram os escolhidos pela insensibilidade moderna para atacar nosso cérebro e apressar nossa imbecilização. Pois são tempos literalmente do barulho.

O alarme contra roubo de carro também é próprio da época porque frequentemente não funciona. Ou funciona quando não deve. Ouvem-se tantos alarmes a qualquer hora do dia ou da noite porque, talvez influenciados pela paranoia generalizada, eles disparam sozinhos. Basta alguém se aproximar do carro com uma cara suspeita e eles começam a berrar.

Decididamente, o som do nosso tempo.

Fonte: Blog do Noblat.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A IMPRENSA E A ONDA MUNDIAL DE PROTESTOS DE RUA

A imprensa e a onda mundial de protestos de rua

Por Carlos Castilho em 04/10/2011

Os protestos de rua estão deixando de ser atos isolados de insatisfação para configurarem um novo fenômeno politico a desafiar a cobertura da imprensa. Até Wall Street entrou na moda, depois que manifestantes norte-americanos decidiram acampar nas proximidades da mais importante bolsa de valores do planeta para protestar contra o que classificam de lucros exagerados do sistema bancário da terra do Tio Sam.

Os protestos se tornaram rotineiros na Europa por conta da crise grega e das medidas de austeridade impostas por governos como os de Portugal, Espanha e Itália. A França e a Inglaterra também viveram dias difíceis recentemente por conta de manifestações que convulsionaram vários bairros de Paris e Londres.

Na América Latina, os estudantes chilenos passaram várias semanas em pé de guerra com a polícia até que o governo conservador do presidente Sebastian Piñera recuou e liberou verbas para a educação. No Brasil, os protestos de rua contra a corrupção começaram insignificantes mas vêm crescendo a cada nova edição, no Rio, São Paulo e Brasília. Até Israel entrou na onda de manifestações para protestar contra a obsessão dos governantes com a segurança nacional e a falta de empenho nas negociações de paz com os países árabes.

Tudo isto acontece depois das rebeliões no Egito, Tunísia, Síria e Líbia, no que foi rotulado como "primavera árabe", promovida por jovens que, tanto quanto seus congêneres da Europa e América Latina, dão sinais de que chegaram ao limite da paciência em matéria de busca de emprego e de oportunidades de trabalho.

O fator em comum a todos esses protestos, e que não está sendo tratado pela imprensa mundial, é a participação dos jovens em todas as manifestações. A mídia quase sempre contextualiza os protestos no clima político partidário dos respectivos países, mas os depoimentos de estudantes, adolescentes e recém-formados minimizam o fator partidário e ideológico. Para eles, a política é vista como algo negativo.

Há uma explicação comum para esses vários protestos: a combinação de desemprego e mesmice politica despertou a impaciência juvenil e, apoiada pela internet, viabilizou um fenômeno que pode estar mudando a conjuntura de muitos países. O desemprego não matou apenas a esperança de independência econômica entre os jovens. Enterrou principalmente a esperança e o futuro. Isso criou a rota mais curta para as ruas e praças, até mesmo em Wall Street.

O repórter norte-americano Nicholas Kristoff é uma exceção na imprensa mundial, pois expressou apoio aos responsáveis pela campanha de rua “Ocupem Wall Street”, no seu blog pessoal, no jornal The New York Times. Kristoff é um respeitado correspondente do NYT na África e tem uma coluna permanente no jornal , além do blog sobre países do Terceiro Mundo.

O que se nota é que enquanto os grande jornais se mostram perplexos sobre o que está acontecendo nas ruas, os repórteres assumem posições mais independentes — como aconteceu também no caso do jornal inglês The Guardian , quando vários repórteres defenderam posições divergentes nos protestos em Londres, em agosto.

O que a imprensa não está vendo é que as ferramentas de comunicação interpessoal na web criram uma espécie de subcultura jovem que não aparece na grande mídia mas se manifesta no Facebook, Twitter, MSN, torpedos e correio eletronico. É essa cultura que permitiu aos jovens árabes atropelar governos estabelecidos há décadas e que eram considerados invulneráveis a protestos populares.

O uso das ferramentas de comunicação da web está sendo coberto mais como uma novidade tecnológica do que como um fenômeno politico. Com isso a imprensa perde a perspectiva do fator mais dinâmico nas manifestações, formado pelo pessimsimo e pela falta de perspectivas entre os jovens de culturas muito diferentes como árabes, judeus e gregos, por exemplo. Valores como o voto e a democracia estão perdendo adeptos na geração com menos de 35 anos porque ela acredita mais na participação direta, descentralização e autonomia, diz Yochai Benkler, diretor do Centro Berkman para Internet e Sociedade, na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Fonte: Observatório da Imprensa.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ALBERTO DINES COMENTA O 11 DE SETEMBRO


 Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011 | ISSN 1519-7670 - Ano 16 - nº 659 -

11 DE SETEMBRO, 10 ANOS

A era do medo

Por Alberto Dines em 12/09/2011 na edição 659

Reproduzido do Diário de S.Paulo, 11/9/2011, intertítulos do OI

Três aviões tinham alvos definidos – as Torres Gêmeas em Manhattan e o Pentágono, em Washington – o quarto deveria atingir a Casa Branca ou o Capitólio, também na capital americana. O objetivo da operação terrorista, a maior de todos os tempos, era claro: ferir o coração da única super-potência, dona do mundo, exibir a sua vulnerabilidade ante uma nova arma de destruição em massa: o suicídio.

Missão cumprida com 75% de êxito material. Sob o ponto de vista psicológico e moral, triunfo absoluto. Graças à repercussão: sem a maciça cobertura da mídia global a intimidação ficaria restrita, o terror para ser efetivo precisa ser compartilhado.

Duas guerras

Começava um novo capítulo na história das guerras, o da guerra total, sem estados nem fronteiras. A partir de 11 de Setembro de 2001, as guerras passaram a travar-se em painéis e monitores, à distância, sem frentes de combate, sem sangue. Mas também sem inocentes, todos passaram a ser culpados e, por isso, devem pagar.

Impossível saber se Osama bin Laden e o comando da al-Qaida, pretendiam ultrapassar o aspecto estratégico e, além de provocar a desmoralização militar americana com as inevitáveis intervenções terrestres, explorar todas as contradições no campo político, social e econômico.

Quem acompanhou o debate da quarta-feira (7/9) entre os oito pré-candidatos republicanos dispostos a enfrentar Barack Obama em 2012, pôde perceber o poder de destruição do golpe perpetrado pela al-Qaida em 11 de Setembro. Os mais bem situados, Rick Perry, governador do Texas, gabou-se das 234 execuções aprovadas por ele em seus mandatos – um recorde nacional –, enquanto o concorrente Mitt Romney tentava suplantar suas façanhas exibindo garbosamente a plataforma anarco-fascista do Tea Party: Estado Zero, economia livre, mercados sem controle, imigração suspensa, isolacionismo máximo, ciência controlada e o Todo Poderoso nas alturas – pelo rito protestante, diga-se.

A verdade é que uma década depois, as Torres Gêmeas estão sepultadas e os EUA à beira de um abismo aterrador: derrotados militarmente no Afeganistão e Iraque, seus princípios republicanos estão esfrangalhados, sua economia incapacitada de produzir novos milagres e seu trunfo maior – a aura de sonho, o American Dream – seriamente ameaçada por um golpe eleitoral não muito diferente daquele que levou Hitler ao poder em 31 de janeiro de 1933.

Historiadores e analistas da extrema-direita tentam hoje minimizar a devastação provocada pelo 11-S. Não querem associar os trilhões de dólares gastos com as duas guerras iniciadas pela dupla George W. Bush-Dick Cheney com a paralisia financeira dos EUA, nem deter-se na vinculação da crise imobiliária de 2008 com as doutrinas do mercado livre hoje pregadas pelo Tea Party.

Década perdida

Outros presidentes americanos cometeram graves equívocos – John Kennedy inclusive – todos conseguiram algum tipo de reversão, nenhum produziu um conjunto de ações e dogmas fundamentalistas tão espesso e tão abjeto como este do octênio 2001-2009. Somado aos dois anos da satanização de Obama desde a sua posse até hoje, temos uma Década Infame, irremediavelmente perdida.

Apesar de tantos avanços estamos em plena era do medo.///

Fonte : Observatório da Imprensa.