domingo, 24 de julho de 2011

EDUCAÇÃO PÚBLICA

EDUCAÇÃO PÚBLICA

Tema complexo e um grande problema no Brasil. Nossa taxa de analfabetismo é muito alta, o nível de aprendizagem dos alunos é baixo, o nível de formação dos professores também e o salário destes profissionais é o menor entre os que possuem nível superior. Não temos um problema na educação, temos uma tragédia. Nossos alunos possuem deficiências que vão da dificuldade em conseguir ler e entender um texto em Língua Portuguesa a fazer operações matemáticas simples. Nossos professores possuem salários tão baixos que comprometem seu aperfeiçoamento constante na profissão. Pedir a um professor para ele pagar uma pós-graduação ou comprar livros é como pedir a um mendigo para ele ir almoçar no restaurante mais caro da cidade. E esta não é uma realidade apenas baiana, pois as notícias que temos é que em outros Estados chega a ser muito pior.

A conseqüência de um salário muito baixo para o professor é que este tem que procurar aumentar sua jornada de trabalho para aumentar sua renda. Tomemos como exemplo a Bahia. Neste Estado a jornada semanal de trabalho de um professor público é entre 20 e 40 horas semanais. A jornada de 40 horas corresponde a 8 horas por dia e está de acordo com as nossas leis trabalhistas. Pois saiba que vários professores do Estado possuem 60 horas, alguns 80 e, acredite ou não, há casos de 100 horas por semana. Em Paulo Afonso é fácil: 40 horas no Estado da Bahia, 20 horas na prefeitura municipal, 20 horas no Estado de Alagoas (em Delmiro Gouveia, havendo também a possibilidade de trabalhar em cidades pernambucanas vizinhas) e ainda, possivelmente, mais 20 horas na UNEB. Como ele consegue trabalhar 100 horas por semana? Simples: ele não consegue. Ele falta uma semana ali, outra semana aqui, outra em outro lugar e assim vai. Por que ele faz isso? Porque precisa sobreviver, pagar suas contas, sustentar a família, coisas que qualquer cidadão precisa fazer, mas a renda é muito baixa e ele tem que aumentá-la. É evidente que a qualidade do seu trabalho sofre um rebaixamento.

Já há muito tempo o Estado brasileiro é omisso e irresponsável com a educação pública. A coisa passou a piorar a partir de 1994 quando foi criada uma lei chamada Fundo Social de Emergência, depois chamada Fundo de Estabilização Fiscal e hoje se chama Desvinculação das Receitas da União, mudou-se o nome mas a irresponsabilidade é a mesma, pois esta lei permite legalmente que o governo federal retire dinheiro da educação pública. Desde 1994 calcula-se em 100 bilhões de reais o montante desvinculado da educação por causa desta lei. Tal irresponsabilidade foi apoiada, e mantida, tanto pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso como pelo “socialista” Lula. Inclusive várias políticas educacionais destes governos facilitaram a vida das escolas privadas. Com a adesão ao Prouni várias faculdades privadas tiveram facilidades com isenções de impostos. Recursos públicos para escolas privadas são comuns desde a Ditadura militar. O problema é antigo.

Passeata gay, passeata pela legalização do uso da maconha, passeata pela liberdade de expressão, etc. Nada temos contra essas manifestações por direitos democráticos, nem mesmo contra a hipocrisia moralista das passeatas contra a pedofilia. Mas, e a passeata pela educação pública? Onde está ela? Se você cidadão não quer que seu (sua) filho (a) seja um (a) imbecil, saiba que terá que se mobilizar para isso. A sociedade tem que parar de pensar em respostas fáceis e falsas, como a de que professores e estudantes são culpados, e começar a cobrar dos verdadeiros responsáveis a solução para os problemas da educação pública. Pense um pouco e reaja. Antes que seja tarde demais.

Aristóteles Lima Santana, 11/07/2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A POLÊMICA SOBRE O CANGAÇO EM PAULO AFONSO

A POLÊMICA SOBRE O CANGAÇO EM PAULO AFONSO

Em Paulo Afonso um grupo de intelectuais tem defendido a identificação de nossa cidade com a cultura do cangaço. João de Souza Lima, Antônio Galdino, Edson Barreto, Luis Rubem e Rubinho Lima são os nomes mais proeminentes dessa linha de pensamento. Livros e seminários anuais já foram produzidos e tudo indica que mais contribuições virão. As motivações para essa identificação são várias para esse grupo, pois Lampião realmente andou por estas plagas diversas vezes e várias lendas citam a furna do morcego como um possível esconderijo dele. A argumentação maior vem, no entanto, da história da Maria Bonita. Ela nasceu na Malhada da caiçara, hoje município de Paulo Afonso. Seria, para esse grupo, a pauloafonsina mais ilustre.

Recentemente um jovem estudante de direito da FASETE provocou o grupo com dois artigos publicados no site de Ozildo Alves. Os artigos atacam o que ele chama de “indústria do cangaço” e acusa o derrame de dinheiro público (da prefeitura e da CHESF) para promover “bandidos e assassinos”. Chega a afirmar que o dinheiro gasto nos eventos sobre o cangaço poderia ser usado para melhorar os hospitais públicos. Nessa questão ele demonstra conhecer pouco sobre orçamento público, pois se a verba destinada a promover eventos culturais não for usada para aquilo a que se destina, também não poderá ser desviada para outras funções. Seu argumento maior é a identificação de Lampião como um bandido assassino e que é um disparate elogiá-lo em eventos públicos. Afirma que outras personalidades como Apolônio Sales, Dom Mário Zaneta e o tenente João Bezerra é que mereciam homenagens públicas. O tenente João Bezerra foi o homem que matou Lampião. Existem acusações de que alguns dias antes ele vendeu armas ao famoso cangaceiro. O jovem estudante não sabe disso, é típico de quem só leu um livro sobre assunto tão vasto como o cangaço (em ambos os textos que publicou ele cita como fonte de pesquisa apenas um livro: “Lampião na Bahia”, de Oleone Coelho Fontes). Lampião se beneficiou de traficantes de armas oriundos das polícias estaduais do nordeste. O tenente João Bezerra provavelmente era um deles. Aliás, de quem vocês acham que os traficantes do Rio e de São Paulo compram armas? Os cangaceiros praticavam estupros? As volantes policiais também. De onde vocês acham que vinha o apoio de uma parte da população sertaneja aos cangaceiros? Defender os “mocinhos” da história é bom, o problema é identificar quem são eles.

Independente do julgamento moral que se faça sobre os cangaceiros não há dúvidas de que o cangaço foi um fenômeno importante da história do nordeste. Nada há que se contestar em quem se dedica ao estudo sobre esse fenômeno. Em Paulo Afonso a influência do cangaço é anterior à emergência deste grupo atual. Desde os anos 50 do século passado um grupo carnavalesco chamado “Os cangaceiros” celebra os combates de Lampião em uma apresentação teatral em época de carnaval. Em várias cidades do sertão o cangaço é reinvidicado como fenômeno cultural típico e não como apologia da criminalidade. Para melhor conhecimento sobre o assunto indico a leitura do livro “Lampiões acesos: o cangaço na memória coletiva”, do professor pauloafonsino Marcos Edilson de Araújo Clemente. Ler mais sobre um assunto tão vasto e complexo ajuda a clarear as idéias.

Há, no entanto, dois paradoxos na identificação de Paulo Afonso com o fenômeno do cangaço. O primeiro é de ordem temporal: o povoamento que deu origem à nossa cidade começou com as obras da CHESF em meados dos anos 40. Lampião morreu em 1938 e o fim definitivo do cangaço se dá em 1940 com a morte de Corisco. Se em 1930 alguém dissesse a Lampião que estava indo a Paulo Afonso, ele se lembraria de imediato da famosa cachoeira e nunca desta cidade. Afirmar que Maria Bonita nasceu em Paulo Afonso é o mesmo que afirmar que ela nasceu em uma cidade que não existia em sua época.

Outra questão é que não só Paulo Afonso é uma cidade que surgiu após o fim do cangaço, mas ela é a negação de tudo o que aquele fenômeno significou. O cangaço é produto das contradições do campo, principalmente da concentração de terras, do poder dos coronéis, dos conflitos entre famílias e da miséria do povo sertanejo. A cidade de Paulo Afonso é fruto de um projeto de desenvolvimento industrial e tecnológico. É filha da modernização e, sendo assim, negação completa do tradicionalismo rural. A construção das usinas da CHESF foi um empreendimento fundamental para a industrialização do nordeste. Enquanto o cangaço é representação do arcaísmo rural, Paulo Afonso é representação do progresso urbano. Procura-se em um fenômeno tipicamente rural o símbolo para um ambiente tipicamente urbano.

O que explica a procura pela simbologia do cangaço em nossa cidade é a origem camponesa dos pioneiros trabalhadores. Existe nessa população o que podemos chamar de saudade do mundo rural. É esse saudosismo que explica a origem tanto do bloco “Os cangaceiros” como do recente movimento dos historiadores locais do cangaço. A opção pelo cangaço sempre vem acompanhada de muita polêmica. A provocação que o estudante da FASETE fez é uma repetição do que acontece em outras localidades onde o cangaço também é cultuado. É bom lembrar que os cangaceiros realmente praticaram crimes. Ninguém até agora procurou a verdadeira identidade cultural de Paulo Afonso nas lutas urbanas de trabalhadores e estudantes. É uma opção, mas envolve um debate mais crítico e politizado. Nossos intelectuais preferem, por ora, dirigir-se ao campo.

Aristóteles Lima Santana, 29/05/2011

domingo, 12 de junho de 2011

SOBRE FHC, PSD E POVÃO

SOBRE FHC, PSD E POVÃO

Há mais ou menos um mês e meio a imprensa discutiu a situação da oposição a Dilma, mais especificamente a oposição de direita formada pelo PSDB e DEM. Gilberto Kassab saiu do DEM e criou o PSD. Aderiram à nova sigla descontentes do DEM e PSDB de São Paulo e aguardam-se novas adesões em todo o país. Qual a linha programática do PSD? Kassab explicou: “não será nem de direita, nem de esquerda e nem de centro”. Você entendeu? Não? Ótimo, a intenção dele era confundir mesmo. Ou explicar aquilo que todo mundo já sabe: os partidos servem para disputar cargos públicos e eleições, idéias são descartáveis. A depender das circunstâncias qualquer uma serve. Em São Paulo o PSD pode apoiar Serra e na Bahia o governador Wagner. O novo partido está sendo apresentado ora como uma manobra de Serra contra Alckimim ora como um racha na direita tradicional cansada de fazer oposição ao lulismo depois da terceira derrota. Como se sabe direitistas neoliberais atacam o Estado e defendem as privatizações, mas adoram um carguinho público. E os cargos federais (e vários estaduais e municipais) estão com o PT e seu bloco de aliados. Então que seja bem vindo o PSD ao admirável mundo novo da disputa por ossos, quer dizer, por cargos.

Outro que chamou a atenção da mídia foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao apresentar um texto com diretrizes estratégicas orientando o PSDB para fazer oposição a Dilma. FHC diz que o seu partido deve “esquecer o povão” e se concentrar na classe média tradicional e na emergente classe C. O que ele chama de “povão” é aquela parcela grande de excluídos pobres que recebem assistência do governo. Para FHC não adianta a direita pedir votos a eles, foram “comprados” por Lula com o “bolsa-família” e outros projetos. Restam os emergentes da classe C e a classe média. O texto causou reações negativas até entre dirigentes do PSDB e DEM. A expressão “esquecer o povão” foi mal recebida por revelar desprezo e preconceito para com os humildes. Era possível esperar algo diferente vindo de FHC?

Apesar de tudo há um pequeno mérito no texto de Cardoso. É um texto que propõe discutir algo esquecido na política brasileira que é a estratégia para atuação política. Como se sabe hoje duas frases resumem a política no Brasil: A) “falarei mal de você até o dia em que você me ofereça um cargo, aí então mudarei de opinião” e B) “falarei bem de você até o dia em que você me demita do cargo, aí então mudarei de opinião”. Estratégia? Quem se importa? Claro que FHC fez a sua intervenção teórica de forma desastrosa, como já é seu costume. Nunca é bom esquecer que ele é o mesmo que, ainda presidente da república, chamou os aposentados brasileiros de “vagabundos”. Ele é reincidente em seu elitismo e dificilmente mudará seu estilo. Mas será que ele está certo? Se PSDB e DEM investirem nestas classes ganharão as próximas eleições? Para isso a classe média terá que esquecer o desemprego galopante e as privatizações dos oito anos do PSDB na presidência e a emergente classe C terá que esquecer que ela não era emergente nos dois mandatos de FHC. Não é segredo que Lula tem ganhado eleições menos por seus supostos méritos e muito mais pelo excesso de deméritos do seu antecessor. Como deméritos não faltam em FHC, e mídia para divulgá-los também não, é provável que Lula ganhe outras.

Aristóteles Lima Santana, 09/05/2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A AVALANCHE

A AVALANCHE
Os resultados das eleições de 2010 projetaram algumas possibilidades de mudanças na política pauloafonsina. Mário Negromonte projetou de forma surpreendente seu próprio filho como deputado estadual, depois da vitória tornou-se ministro das cidades no governo Dilma e tem como aliados fortes o vice-governador do Estado e o prefeito de Salvador. Sendo praticamente um “vice-rei” da Bahia (o governador Wagner é temporariamente o “rei”) está preparando um cerco à prefeitura de Paulo Afonso. Uma das peças-chave do tabuleiro ele já destronou: o ex-deputado Luis de Deus, que na inviabilidade de se reeleger deputado estadual lançou-se na aventura de uma candidatura a deputado federal. A aventura quase deu certo, mas com a derrota caiu a influência do ex-deputado. Mário agora mira a prefeitura. Derrubado Luis, falta derrubar Anilton.
Para muitos na cidade isso não só será inevitável como desejável. O provinciano típico parece ter o desejo de trocar de Senhor de vinte em vinte anos. Algumas pessoas chamam isso de “democracia”. Uma palavrinha que já sabemos servir para muitos propósitos: bombardear países, chacinar pobres e ganhar prefeituras são alguns deles. Mas Mário que se cuide, pois Luis de Deus tem uma carta na manga e ela se chama Paulo Rangel. Luis e Rangel passaram publicamente a negociar a ida do prefeito Anilton para a base aliada do governador Wagner e isso poderá fortalecê-lo. É bom lembrar que Luis ainda tem chances de assumir uma vaga como deputado federal, é bom lembrar que o “rei” Wagner tem medo de seu “vice-rei”, é bom lembrar que a máquina da prefeitura está com Anilton. Mário pode até conseguir, mas a batalha vai ser dura.
Luis de Deus e Paulo Rangel juntos. DEM e PT juntos. Isso seria irrealizável há dez ou quinze anos atrás, mas o DEM (antigo PFL) foi o partido que mais defendeu as privatizações e hoje conhece uma decadência merecida. É provável que um cadáver de quinze dias esteja em melhores condições que este partido. E o PT aceitou as regras da globalização neoliberal. Tornou-se um colosso político-administratico, mas do ponto de vista programático-ideológico virou um cadáver de dois dias. Tudo pronto para uma “bela amizade” em Paulo Afonso. Uma amizade temporária, as facas ficam guardadas para a próxima briga.
A avalanche preparada por Mário encontrará forte resistência, mas poderá dar certo. A grande carta de Mário é seu filho. Mário Júnior foi um dos deputados mais votados na Bahia. É bom não esquecer que a idéia de um político jovem em ascensão já comoveu esta cidade em uma época não muito remota. E já sabemos que a história costuma se repetir, às vezes como farsa, outras como tragédia, ópera-bufa, tolice, etc. As opções são muitas. O que já sabemos é que haverá um confronto em 2012. Mário versus Luis. As outras forças são secundárias e circulam entre estas principais. É possível uma terceira candidatura, mas já está eleita à inutilidade patética. Os embates já começaram na imprensa local e torcidas organizadas de ambos os lados se manifestam. Paulo Afonso trocará de dono? Ainda é cedo para responder.
Aristóteles Lima Santana, 05/04/2011.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A campanha da fraternidade 2010

A campanha da fraternidade deste ano promovida pela igreja católica tem a curiosa intenção de combater a idolatria ao dinheiro. O culto ao dinheiro é, como todos sabemos, um dos aspectos mais fortes da ideologia burguesa. O conceito de riqueza pressupõe a idéia de acúmulo de capital. A prática do acúmulo excessivo leva inevitavelmente a um padrão alto de egoísmo individualista. O individualismo burguês pressupõe a idéia de acúmulo de capital em sua forma dinheiro, pois é a partir dele que se cria a prosperidade. Teologia da Prosperidade é, aliás, o nome da nova onda ideológica presente entre as seitas protestantes (evangélicos) que surgem e espalham-se de forma rápida. Nesta curiosa teologia a fé é medida a partir do acúmulo de dinheiro e a função dela é trazer ganho pecuniário ao fiel. Uma curiosa concepção bem distante de um famoso dito de Cristo: "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus". Não há dúvidas de que a atual campanha da Igreja é uma resposta à Teologia da Prosperidade. Ao bater contra o acúmulo de capital e sua idolatria a Igreja Católica quer derrotar uma concepção que tem tirado-lhe muitos fiéis. Pode-se afirmar que a campanha veio em boa hora: O Brasil inteiro ficou chocado ao ver pela TV políticos evangélicos agradecendo a Deus em oração o produto ganho através da corrupção. Este caso mostra o claro limite extremo da Teologia da Prosperidade: passa-se a justificar o ganho monetário a qualquer custo, o que leva ao roubo e à corrupção.
A atual campanha da Igreja é resultado de um renascimento da Teologia da Libertação? Esta concepção foi hegemônica entre os membros da Igreja nos anos 70, 80 e até meados dos anos 90. Uma concepção teológica que abriu um processo de crítica e combate ao capitalismo gerando no seio da Igreja muitos lutadores pelo socialismo entre leigos e padres. Tal teologia diminuiu consideravelmente sua influência nos últimos anos graças às perseguições internas efetuadas pelo Papa João Paulo II e seu assessor pessoal (e atual Papa) Ratzinger. É claro que os seguidores da Teologia da Libertação sentem-se à vontade com a atual campanha da fraternidade, mas a asua crítica ao modo de produção capitalista é muito mais radical do que a crítica do culto ao dinheiro. Os grupos de fanáticos carismáticos que se espalham pelo Brasil poderão no máximo promover críticas emocionais ( e muitas vezes hipócritas) ao acúmulo de dinheiro e não uma reflexão mais profunda sobre o sistema capitalista como um todo, como fazem os teólogos da libertação.
Como será dirigida por grupos não ligados à Teologia da Libertação a campanha da fraternidade terá limites claros: sua crítica ao acúmulo de capital será emocional e despolitizada, sem uma reflexão profunda sobre o que gera o culto ao dinheiro, como resultado a campanha será esquecida pelos leigos após sua finalização; sem essa reflexão profunda os membros da Igreja ficarão sem conhecer o verdadeiro caráter da Teologia da Prosperidade que é a de ser um subproduto ideológico do neoliberalismo, corrente hegemônica entre os defensores do sistema capitalista mundial hoje. O neoliberalismo (que é chamado de "monetarismo" entre os seus seguidores) promove desde a década de 80 uma luta ideológica contra os valores de igualdade e solidariedade e valoriza o extremo individualismo egoista e o acúmulo de capital. Combater de forma correta o culto ao dinheiro será combater o capitalismo e o neoliberalismo. Os seguidores da Teologia da Libertação fazem assim, os carismáticos vão fazê-lo?
Uma outra questão: a crítica do culto ao dinheiro não pode deixar de compreender que ele só é cultuado porque tem uma utilidade. Acumula-se dinheiro para que se possa comprar mercadorias. Dentro do sistema capitalista a única forma de se ter acesso às mercadorias é através do dinheiro e é o consumo de tais mercadorias a fonte prática do culto monetário. Uma crítica ao consumismo desenfreado traria mais "dividendos" reflexivos (políticos, teológicos, ecológicos, etc.) do que a crítica do culto ao dinheiro. A Teologia da Prosperidade não passa de um materialismo burguês do pior calibre: pedir a Jesus dinheiro para comprar mais produtos e ser mais feliz. A crítica ao consumismo é uma pancada mais forte em seus pressupostos.
Apesar de seus limites esta campanha da fraternidade abre boas perspectivas para criarmos um processo de reflexão e crítica ao sistema capitalista. Inclusive para provocar nos cristãos católicos uma reflexão sobre o porquê do Papa Ratzinger apoiar ostensivamente as forças do capitalismo mundial, promotoras do culto ao dinheiro, e combater as forças socialistas, inclusive dentro da Igreja, promotoras da crítica radical ao capitalismo e ao dinheiro. A campanha pode, inclusive, ajudar a Teologia da Libertação a sair do limbo a que foi submetida por Ratzinger. Nem é preciso lembrar que é tarefa fundamental para quem sonha e luta por uma nova sociedade socialista e solidária combater a Teologia da Prosperidade, um misto de fanatismo imbecil e podridão ideológica burguesa.

Aristóteles Lima Santana, 23/03/2010.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

OS CONCURSADOS, O HOSPITAL E A POLÍTICA EM PA.

OS CONCURSADOS, O HOSPITAL E A POLÍTICA EM PA

Duas notícias abalaram a cidade de Paulo Afonso nos últimos dias: a primeira foi a vitória em segunda instância dos concursados contra a prefeitura municipal e, evidentemente, sobre os interesses do prefeito Anilton Bastos; a segunda foi a transferência do Hospital Nair Alves de Souza para o Estado da Bahia. A vitória dos concursados já era esperada. Toda a argumentação contrária não passa de falácia de quem quer fazer da prefeitura um cabide de empregos, os concursados estão bem amparados na legalidade do concurso. Apesar disso Anilton anunciou que vai recorrer na terceira instância. Será derrotado novamente mas entre esta e a próxima derrota não pretende chamar ninguém (embora no resultado do processo esteja claro que ele tem que convocar os concursados). Recorrer para quê tendo em vista uma derrota certa? Talvez para justificar aos seus seguidores que está tentando evitar o inevitável, para não perder mais votos, para tentar garantir apoios, para não prejudicar a campanha de Luis de Deus a deputado. Mas o tiro pode sair pela culatra. A próxima derrota inevitável (é raríssimo alguém perder na primeira e segunda instância e vencer na terceira, nesse caso impossível devido à absoluta legalidade do concurso) poderá gerar entre os seguidores de Luis de Deus um sentimento de revolta que poderá prejudicá-lo eleitoralmente na cidade. Frases como: “eles não se mobilizaram politicamente o suficiente para nos defender” ou “se não temos mais cargos na prefeitura para quê votar nele?” poderão ser ouvidas nos próximos meses. Como a popularidade de Anilton é zero entre os concursados ele terá 1800 pessoas com ódio dele e do seu chefe trabalhando na prefeitura. Bater de frente nos concursados foi pior. Eles poderão pagar caro por esse erro.
Fazendo uma comparação entre este mandato de Anilton e o anterior na década de 90 dá para perceber que ele deu muita sorte na primeira gestão, o que ajudou a construir o mito em torno dele como administrador competente. Ele recebeu a prefeitura de um aliado (Luis de Deus), que evidentemente não deixou para ele nenhuma “batata quente” política ou administrativa, e passou-a para um aliado (Paulo de Deus), que tratou de não expor o resultado de seus quatro anos de gastança. Desta vez ele recebeu a prefeitura de um adversário e em uma conjuntura estadual e nacional muito diferente. Os seus opositores não ficaram muito desestimulados com a derrota de Caíres e o movimento dos concursados desgastou-o consideravelmente. Na verdade ainda está na memória a vitória de Caíres em 2004. Foi a prova de que o grupo de Luis de Deus podia ser derrotado. Esta lembrança será um fantasma que irá acompanhá-los no mínimo até a próxima eleição para prefeito.
A passagem do hospital da CHESF para o Estado da Bahia foi uma saída melhor do que sua privatização. Daí a Cezar o que é de Cezar, Lula não eliminou o processo de desmonte do Estado federal iniciado por FHC, mas pelo menos diminuiu seu ritmo e procurou, neste caso ao menos, uma alternativa em que o órgão permanecesse público. Alguns políticos pauloafonsinos que hoje protestam contra esse processo são os mesmos que em passado recente apoiavam FHC e defendiam as privatizações irresponsáveis do seu governo, inclusive propondo a privatização do hospital da CHESF. Todos estão com medo porque conhecem a situação da saúde pública em toda a Bahia e no Brasil, mas isso só será resolvido com a reversão completa das políticas neoliberais. Ou seja, com a reversão das políticas que os “Democratas” (sic) defendem desde que usavam o nome de PFL.

Aristóteles Lima Santana.

domingo, 30 de agosto de 2009

AGOSTO PRO ROCK (show)

AGOSTO PRO ROCK
Com este título iniciou-se o projeto idealizado por Nildo (conhecido como “aranha”) de valorização das bandas de rock locais e abrir um espaço de diversão para a juventude da cidade. O evento aconteceu no Lindinalva Cabral no dia 29/08/09 e reuniu as bandas “River Murphy” , “Prafatory”, “Caffeine Queen”, “Hatend” (com seu cd recentemente lançado) e “Age of Fear”, que tocaram nesta sequência. Além deles um grupo de Hip Hop e Chuck, que fez sua estréia como comediante com um mini espetáculo chamado “Rock é coisa do cão”, fizeram apresentações.
Em Paulo Afonso a cena roqueira tem evoluido muito, claro que à revelia do poder público como é de praxe. Jovens dedilhando violões e guitarras para aprender a tocar é quase sempre o início da realização de um sonho: mostrar ao mundo que se é capaz de fazer algo criativo e de valor. A música tornou-se a válvula de escape para uma juventude entediada com a escola e cansada de uma vida sem desafios. O rock com seu apelo de rebeldia e pulsação pela vida, assim como por sua forte dose de sexualidade, é o estilo preferido desde os anos 50 por esta juventude.
As bandas que tocaram demonstraram profissionalismo. Músicos competentes e vocalistas (uma delas, “Caffeine Queen”, com vocal feminino) muito bons. É de se esperar que as músicas autorais não primem pela extrema originalidade. É natural que sendo muito jovens sua musicalidade tende ainda a ser o espelho de seus ídolos musicais. A experiência e o empenho farão com que a criatividade aflore com o tempo.
Nota dez para a organização do evento mas um zero para a intolerância dos fiscais da prefeitura. O último show (da banda “Age of Fear”) foi bruscamente interrompido por um fiscal prejudicando a apresentação da banda e frustrando os fãs. O show foi planejado para terminar à meia noite mas os fiscais sempre são tolerantes com eventos organizados por colégios, igrejas e até com shows de pagode no mesmo local. Com o rock predominou o autoritarismo. Lamentável.
Nota dez também para o público que se divertui, dançou e não agrediu ninguém. Que venham outros shows.
Aristóteles Lima Santana. 30/08/09